O termostato gerontocrático
Transição demográfica, economia política e a construção da urgência climática
“A vida é liberdade de escolher, indiferença de escolher, possibilidade de optar.”
— Constantin Noica, Diário filosófico (1990)
Feliz 2026 a todos!
Introdução: o problema da proporcionalidade
O ano de 2024, ao registrar uma temperatura média global de aproximadamente 15,1 graus Celsius, consolidou um ponto de inflexão que deve ser compreendido não como um registro isolado de emergência, mas como o ápice de uma oscilação histórica em relação à linha de base de 14 graus Celsius. Se analisarmos a trajetória planetária desde o Período Quente Medieval, aqui denominado Ponto X, percebemos que a variabilidade climática descreve uma onda de longo curso: enquanto o calor medieval situava-se ligeiramente acima da média, a Pequena Era Glacial marcou um mergulho profundo que levou o termostato global aos 12,9 graus Celsius. O dado notável do momento atual, o Ponto Y, é a simetria dessa variação; o desvio de 1,1 grau verificado em 2024 em relação à média do século 20 espelha, em magnitude exata, o desvio de 1,1 grau experimentado no frio mais severo da história moderna.
Este cenário de variabilidade, visualmente sintetizado na onda térmica apresentada no gráfico abaixo, constitui o ponto de partida para uma reflexão que não pretende contestar a física do fenômeno, mas interrogar a economia política de sua tradução em agenda pública. A pergunta central deste ensaio não é se há aquecimento, mas sim por que a resposta política assume uma intensidade retórica tão específica precisamente quando a oscilação atinge seu pico positivo. Entre a constatação física da variação e a conclusão de que o Estado deve expandir sua jurisdição através de tributos e proibições, existe um abismo de decisões humanas permeadas por interesses, frequentemente capturáveis por elites que buscam maximizar renda através da gestão de uma vulnerabilidade que é tanto biológica quanto política.
O presente ensaio desenvolve uma hipótese de economia política que denomino somatopolítica: a proposição de que a agenda contemporânea da “urgência climática” é significativamente amplificada — para além do que os dados meteorológicos objetivos justificariam — por uma convergência estrutural entre a transição demográfica global (envelhecimento populacional, declínio da natalidade, alteração da razão de dependência), a fisiologia do envelhecimento humano (declínio da capacidade termorregulatória) e a economia política do poder concentrado nas mãos de elites gerontocráticas que maximizam benefícios através da expansão da intervenção do aparato estatal na vida das empresas e pessoas.
Esta análise mobiliza o instrumental teórico da Escola de Escolha Pública (Public Choice), particularmente as contribuições de Mancur Olson sobre a lógica da ação coletiva e o modelo do “bandido estacionário”, a teoria dos custos de transação de Ronald Coase, as perspectivas institucionalistas de Douglass North, as críticas ao crescimento do Estado desenvolvidas por James Buchanan, William Niskanen, Friedrich Hayek e Milton Friedman, e a teoria dos “contrabandistas e batistas” de Bruce Yandle.
I. O cenário demográfico: o inverno ocidental
1.1 A transformação estrutural das sociedades desenvolvidas
Os dados demográficos revelam uma transformação sem precedentes nas sociedades economicamente avançadas. Segundo as Perspectivas de População Mundial 2024 das Nações Unidas, a população global deverá atingir seu pico em torno de 10,3 bilhões de pessoas em meados da década de 2080, antes de iniciar um declínio gradual. Contudo, esta trajetória agregada mascara diferenças regionais dramáticas.
Em 63 países e áreas — contendo 28% da população mundial em 2024 — o tamanho da população já atingiu seu pico. Este grupo inclui China, Alemanha, Japão e Rússia. A idade mediana global aumentou de 22,2 anos em 1950 para 30,9 anos em 2025, com projeção de alcançar 42,1 anos em 2100. Porém, a velocidade do envelhecimento varia dramaticamente entre regiões.
Observe-se a comparação das idades medianas em 2024: Japão, 49,9 anos; Alemanha, 47,8 anos; Itália, 47,3 anos; Espanha, 45,5 anos; China, 40,2 anos; Estados Unidos, 38,9 anos; Índia, 29,8 anos; e Nigéria, aproximadamente 18 anos. Esta dispersão etária entre regiões não é apenas um dado demográfico: é uma variável política de primeira grandeza. A “urgência” climática é, portanto, uma narrativa emanada de sociedades envelhecidas (Norte) imposta a sociedades jovens (Sul), refletindo as ansiedades de corpos velhos sobre um futuro que eles temem não suportar fisicamente.
1.2 O colapso da natalidade europeia
A Europa experimenta o que demógrafos denominam “inverno demográfico”. As taxas de fertilidade total em 2024 situam-se dramaticamente abaixo do nível de reposição (2,1 filhos por mulher): Espanha, 1,10 (recorde histórico negativo); Itália, 1,18 (recorde histórico negativo); Finlândia, 1,25 (menor desde o século XIX); Áustria, 1,32; Alemanha, 1,35 (menor desde 1994); e Suécia, 1,43.
Em 2024, menos de um quarto (23,6%) dos 202 milhões de domicílios da União Europeia possuem ao menos uma criança menor de idade. Três quartos consistem apenas de adultos. As taxas de fertilidade na União Europeia permanecem abaixo do nível de reposição desde a década de 1970. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais. Até o final da década de 2070, a população global com 65 anos ou mais deverá alcançar 2,2 bilhões, ultrapassando o número de crianças menores de 18 anos.
1.3 A gerontocracia política: quem decide?
As elites políticas ocidentais são substancialmente mais velhas que suas populações. O 119º Congresso dos Estados Unidos, empossado em janeiro de 2025, é o terceiro mais velho da história americana, com idade média de 58,9 anos. O Senado apresenta idade média de 63,8 anos, enquanto a Câmara dos Representantes tem média de 57,7 anos. A idade mediana da população americana é de 39,1 anos — uma discrepância de quase 25 anos em relação ao Senado.
Os senadores mais velhos incluem Chuck Grassley (91 anos), Bernie Sanders (83), Mitch McConnell (83), James Risch (82), Angus King (81) e Dick Durbin (80). Vinte membros do Congresso têm 80 anos ou mais. Cinquenta senadores — metade do corpo — têm mais de 65 anos. Os Estados Unidos foram denominados a “gerontocracia mais avançada do mundo” em comparação com outras democracias da OCDE. Os dois presidentes mais recentes — Joe Biden (82 ao deixar o cargo) e Donald Trump (79) — são os mais velhos da história americana.
A União Europeia apresenta padrão semelhante. A Comissão Europeia para o mandato 2024-2029 tem média de idade de 52 anos, o que deve ser contextualizado com o envelhecimento estrutural do continente: a idade mediana da população da UE atingiu 44,7 anos em 2024. A base eleitoral e a burocracia permanente de Bruxelas são dominadas por coortes etárias que priorizam a estabilidade e a segurança sanitária.
Implicação estrutural: existe uma classe dirigente demograficamente distinta, envelhecida, que controla aparatos regulatórios e orçamentários em sociedades cuja base jovem e produtiva está em declínio acelerado. Esta configuração não é politicamente neutra.
II. O substrato biológico: a discrepância sujeito-objeto
2.1 A fisiologia do envelhecimento térmico
A experiência do clima é mediada inteiramente pela capacidade do corpo humano de manter a homeostase térmica. Conforme essa capacidade se degrada com a idade, o ambiente é percebido como cada vez mais volátil e hostil — independentemente das variações meteorológicas objetivas.
A termorregulação humana depende de dois mecanismos efetores primários: a vasodilatação cutânea (aumento do fluxo sanguíneo na pele) e a sudorese écrina (resfriamento evaporativo). Ambos sofrem degradação funcional profunda com o avanço da idade. Estudos do Projeto PSU H.E.A.T. (Human Environmental Age Thresholds) demonstram que adultos com mais de 50 anos armazenam 1,3 a 1,8 vezes mais calor corporal que jovens de 19-30 anos sob a mesma carga térmica.
A falência dos mecanismos de resfriamento manifesta-se de múltiplas formas. A disfunção sudomotora implica que idosos apresentam redução significativa na taxa de sudorese por glândula e um “limiar de sudorese” elevado — o corpo de um indivíduo de 70 anos precisa armazenar uma carga térmica interna maior antes que os mecanismos centrais de resfriamento sejam ativados. O resultado é um período prolongado de hipertermia não compensada. O comprometimento cardiovascular significa que o coração senescente deve trabalhar com esforço desproporcional para obter um resfriamento marginal, devido à menor biodisponibilidade de óxido nítrico e à rigidez arterial. A experiência subjetiva resultante não é apenas de “calor”, mas de uma tensão cardiovascular sistêmica, frequentemente descrita como “sufocamento” ou “opressão”.
2.2 A lacuna de sobrevivência e os limiares de estresse térmico
O conceito de “estresse térmico incompensável” define o limite ambiental além do qual o equilíbrio térmico é impossível. Pesquisas recentes refutaram a teoria anterior de que o limite de sobrevivência humana seria uma temperatura de bulbo úmido (WBGT) de 35°C. Para adultos jovens e saudáveis, este limiar ocorre em temperaturas de bulbo úmido próximas a 31°C. Para idosos, dados empíricos mostram que o limiar ocorre em temperaturas significativamente mais baixas — frequentemente tão baixas quanto 26-28°C em condições úmidas.
Esta diferença cria uma lacuna de sobrevivência (survival gap) térmica entre a classe dominante e a população jovem e produtiva. O que é um ambiente “compensável” e seguro para um trabalhador de 25 anos pode representar uma zona de perigo fisiológico para um legislador de 75 anos. Quando este último legisla sobre “emergência climática”, ele não está mentindo sobre sua experiência — está, porém, generalizando uma vulnerabilidade biológica particular como se fosse universal.
O caso da onda de calor europeia de 2003 é ilustrativo: 81% das 2.814 mortes registradas em um centro de saúde parisiense foram de pessoas com mais de 75 anos. O calor que foi letal para idosos foi, para a grande maioria da população jovem, meramente desconfortável.
2.3 A linha de base móvel da percepção
Esta diferença fisiológica cria o que denomino uma “discrepância sujeito-objeto” na percepção climática. Enquanto a mudança meteorológica objetiva é uma constante global de aproximadamente +1,5°C, a experiência vivida dessa mudança é dramaticamente não linear e dependente da idade. Para um indivíduo de 60 anos, o “aumento percebido no estresse térmico” é substancialmente maior do que para um de 25, mesmo que ambos estejam expostos à mesma temperatura ambiente.
A realidade epidemiológica também sofre distorção somática. Estudos publicados no Lancet Planetary Health demonstram que, globalmente, o frio mata significativamente mais do que o calor — a razão de mortalidade é de aproximadamente 9 mortes por frio para cada 1 morte por calor. No entanto, a política climática é obsessivamente focada no calor. Isso ocorre porque o frio é um risco gerenciável e familiar para as elites do Norte (resolvido com aquecimento central), enquanto o calor representa um estresse fisiológico agudo e “novo” para corpos senescentes que perderam a capacidade adaptativa.
III. A economia política do medo: instrumentos teóricos
3.1 Mancur Olson e a lógica da ação coletiva
A obra de Mancur Olson, The Logic of Collective Action (1965), fornece o alicerce teórico para compreender por que uma elite envelhecida consegue dominar a agenda política e mobilizar segmentos da população em favor de políticas que beneficiam desproporcionalmente essa mesma elite.
A premissa central de Olson desafia a visão pluralista ingênua de que grupos com interesses comuns se organizarão naturalmente para promovê-los. Pelo contrário, Olson postula que, a menos que o número de indivíduos num grupo seja suficientemente pequeno, ou a menos que haja coerção ou algum dispositivo especial, indivíduos racionais e autointeressados não agirão para alcançar seus interesses comuns.
Olson distingue entre grupos privilegiados (pequenos, onde os custos de organização são baixos e os benefícios por membro são altos) e grupos latentes (grandes, onde a contribuição individual é imperceptível e o comportamento racional é o free-riding). A elite política e econômica ocidental — concentrada nos senados, comissões executivas e conselhos de administração — constitui um grupo privilegiado clássico: possui recursos concentrados, acesso direto aos mecanismos regulatórios e um “interesse abrangente” na preservação do sistema que lhe garante rendas e segurança.
3.2 O modelo do bandido estacionário
Em sua obra posterior, Power and Prosperity (2000), Olson expandiu sua análise para a própria natureza do Estado, conceitualizando-o como um “bandido estacionário”. Ao contrário de um “bandido itinerante” que saqueia uma região e parte, destruindo os incentivos para a produção futura, o bandido estacionário estabelece-se num território, monopoliza o “roubo” (sob a forma de impostos) e desenvolve um interesse abrangente (encompassing interest) na prosperidade desse território.
A aplicação deste modelo à política climática é direta: a emergência do Estado regulador climático pode ser vista como evolução lógica do bandido estacionário. Diante da ameaça de “bandidos itinerantes” (externalidades não reguladas, catástrofes que destroem capital), o Estado expande sua jurisdição para proteger a viabilidade de longo prazo da extração de recursos. Contudo, a natureza desse interesse abrangente é moldada pela composição da elite que controla o Estado. Se essa elite é uma gerontocracia com horizonte temporal biológico encurtado, o “interesse abrangente” sofre distorção: o foco muda da maximização do crescimento a longo prazo para a minimização do risco imediato e a preservação de ativos existentes.
3.3 Coase, custos de transação e a internet
A teoria dos custos de transação de Ronald Coase oferece instrumental adicional. Em The Nature of the Firm (1937), Coase explicou que firmas existem porque os custos de usar o mecanismo de preços — encontrar parceiros, negociar contratos, garantir cumprimento — são por vezes proibitivos. Hierarquias emergem para internalizar transações quando é mais barato dirigir recursos por autoridade do que negociar no mercado aberto.
A internet reduziu drasticamente os custos de informação e comunicação. Teoricamente, isto deveria levar à desintegração de grandes hierarquias e permitir coordenação descentralizada. Contudo, a redução dos custos de produção de informação criou um excesso de ruído onde a atenção tornou-se o recurso escasso. Quem possui os meios para agregar e direcionar atenção — plataformas digitais e quem as financia — detém o poder de moldar a percepção de custos e benefícios da massa.
A facilidade de organização digital não resultou em autonomia política para grupos latentes; pelo contrário, criou oportunidade para elites “ativarem” massas juvenis com sinais informativos (notícias alarmistas, relatórios científicos selecionados) sem precisar negociar diretamente ou compartilhar poder real. O custo marginal para manipular incentivos seletivos caiu drasticamente. Não obstante, a redução dos custos de produção e circulação de informação caiu a tal ponto que cada ponto na Grande Rede não apenas consome, mas produz e circula informações, o que, em muitos aspectos, enfraquece as elites que dominam o jogo político e burocrático.
Além disso, a abordagem climática atual impõe custos de transação astronômicos. A tentativa de coordenar a redução de emissões de quase 200 países soberanos e 8 bilhões de indivíduos através de burocracias internacionais centralizadas é inerentemente ineficiente. A teoria coaseana sugere que a adaptação local é frequentemente mais eficiente e possui menores custos de transação do que a mitigação global via tratados. No entanto, a elite global prefere a abordagem de altos custos de transação porque ela detém o monopólio da intermediação desses processos.
3.4 O efeito catraca e a crise permanente
Robert Higgs, em sua obra seminal Crisis and Leviathan, descreveu o “efeito catraca” (ratchet effect): crises — guerras, pandemias, emergências — levam a aumentos abruptos no tamanho e poder do Estado que nunca recuam totalmente após o fim da crise. A “emergência climática” oferece a crise perfeita para o bandido estacionário: é permanente (sem data de término), global (sem exterior para onde escapar) e tecnicamente complexa (requerendo “especialistas” para mediar entre o público e a “ciência”).
William Niskanen demonstrou que burocratas são agentes racionais que maximizam orçamentos e jurisdições. Uma ameaça existencial justifica orçamentos existenciais. A Escola Austríaca argumentou que o Estado não resolve problemas; administra-os perpetuamente, pois a resolução eliminaria a justificativa para sua existência. A criação de vastas novas burocracias — como o Escritório de Mudança Climática e Equidade em Saúde (OCCHE) dentro do HHS nos EUA — exemplifica esta dinâmica: agências cuja própria existência depende da perpetuação da narrativa de crise.
3.5 Hayek e a arrogância fatal
A tentativa de controlar o clima global através do gerenciamento microscópico da economia — como a Taxonomia da UE que define quais investimentos são “sustentáveis”, ou a proibição de tecnologias específicas (motores a combustão, fogões a gás) — é a definição moderna da “arrogância fatal” (fatal conceit) descrita por Friedrich Hayek.
O problema do conhecimento é central: planejadores centrais não possuem, e não podem possuir, o “conhecimento de tempo e lugar” disperso entre milhões de agentes econômicos. Eles não podem saber qual a combinação ótima de adaptação e mitigação para cada comunidade específica. Ao impor soluções uniformes (”Net Zero 2050”), eles destroem a capacidade de descoberta do mercado e geram ineficiências colossais e consequências não intencionais — como a crise energética na Alemanha após o fechamento de usinas nucleares.
IV. A coalizão “cinza-verde”: anatomia de uma aliança
4.1 A teoria dos “contrabandistas e batistas”
Bruce Yandle desenvolveu a teoria dos “contrabandistas e batistas” (Bootleggers and Baptists) para explicar como regulações duradouras são frequentemente apoiadas por dois grupos distintos com motivações diferentes: moralistas que querem eliminar um “vício” (os batistas) e oportunistas econômicos que lucram com a proibição (os contrabandistas). Os batistas fornecem legitimidade moral; os contrabandistas, recursos e persistência institucional.
Na coalizão “cinza-verde” (grey-green coalition), os ativistas climáticos jovens desempenham o papel de “batistas”: fornecem cobertura moral e urgência retórica. Seu discurso é apocalíptico, focado em “salvação” e no “pecado” das emissões de carbono. A elite gerontocrática e o complexo industrial-climático desempenham o papel de “contrabandistas”: trabalham nos bastidores para escrever regulações complexas que criam barreiras à entrada, subsídios e mercados cativos.
Os “contrabandistas” incluem setores de tecnologia verde, indústrias de energias renováveis, seguradoras, consultorias ESG, o setor financeiro (títulos verdes, mercados de carbono) e a própria burocracia estatal. Eles apoiam as mesmas regulações defendidas pelos batistas, não por moralidade, mas porque essas regulações prejudicam seus concorrentes, criam barreiras à entrada e geram subsídios diretos e mercados cativos para seus produtos.
4.2 A dinâmica geracional
Dados consistentes mostram que idosos comuns expressam menor preocupação climática que jovens: 70% dos americanos de 18-34 anos se preocupam com aquecimento global versus 56% dos maiores de 55; 51% dos jovens acreditam que o aquecimento será ameaça séria em suas vidas versus 29% dos maiores de 55. Esta aparente contradição — elites políticas idosas promovendo agenda climática enquanto idosos comuns são menos alarmados — resolve-se quando distinguimos entre quem paga e quem recebe os custos e benefícios da agenda.
A sabedoria da experiência permite ao idoso comum reconhecer que sua sensibilidade térmica aumentada é fisiológica, não necessariamente sinal de catástrofe ambiental. Ele viveu décadas de previsões apocalípticas não realizadas. Porém, elites políticas e burocráticas — embora igualmente capazes desta distinção metacognitiva — têm incentivos materiais para não fazer esta distinção publicamente. A narrativa de crise serve à expansão de seu poder e orçamento.
A diferença não é cognitiva; é estrutural. O idoso comum paga os custos da urgência climática (energia mais cara, impostos mais altos, restrições de mobilidade). A elite idosa recebe os benefícios (expansão de jurisdição, novos fluxos de recursos, poder regulatório).
4.3 “Vitalidade por procuração”
O fenômeno que denomino “vitalidade por procuração” (vitality by proxy) descreve como a elite gerontocrática resolve seu défice de energia física: financiando e amplificando movimentos digitais juvenis. Figuras como Aileen Getty (herdeira do petróleo, co-fundadora do Climate Emergency Fund) e Christopher Hohn (gerente de fundos de hedge e financiador do Extinction Rebellion) canalizam milhões de dólares para grupos de ativismo radical como Just Stop Oil.
A elite transfere recursos financeiros (que possui em abundância) para adquirir “energia cinética” e “legitimidade moral” (que lhe faltam). A juventude mobilizada fornece a paixão, a presença nas ruas, a face moral do movimento; a elite fornece direcionamento estratégico, financiamento e acesso institucional. O fenômeno Greta Thunberg é paradigmático: uma adolescente torna-se rosto global do movimento, mas quem financia, organiza e amplifica são estruturas adultas com interesses institucionais.
A internet serve como tecido conjuntivo de baixo custo: permite que a elite “ative” a massa juvenil com sinais informativos sem precisar negociar diretamente ou compartilhar poder real. A heterogeneidade humana é domesticada não pela homogeneidade, mas pela complementaridade funcional: o medo do fim do mundo dos jovens financia o medo do fim da vida dos velhos.
V. Os fluxos materiais e a expansão regulatória
5.1 Dimensões econômicas do aparato climático
Os fluxos financeiros associados à agenda climática são extraordinários. Na COP29 (2024), foi acordado compromisso de 300 bilhões de dólares anuais de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, com meta ampliada para 1,3 trilhão de dólares anuais até 2035. A Comissão Europeia estima que 477 bilhões de euros adicionais por ano são necessários para atingir a meta de redução de 55% das emissões até 2030, totalizando aproximadamente 1,2 trilhão de euros anuais — equivalente a 6,7% do PIB de 2024.
Nos Estados Unidos, o Inflation Reduction Act (IRA) distribui cerca de 369 bilhões de dólares (com estimativas reais ultrapassando 1 trilhão) em créditos fiscais e subsídios. A análise dos beneficiários revela que os fundos fluem desproporcionalmente para grandes corporações de energia e montadoras de automóveis, que gastaram centenas de milhões em lobby para moldar a legislação. A complexidade das regras de conteúdo local e de trabalho sindical garante que apenas atores politicamente conectados possam acessar esses recursos.
O Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS) arrecadou, até meados de 2025, 245 bilhões de euros em receitas através da venda de licenças de emissão. O Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras (CBAM) impõe tarifas sobre importações de países com regulações climáticas menos rigorosas, alegadamente para evitar o “vazamento de carbono”. Na prática, conforme a análise de economia política, ele serve para proteger indústrias europeias envelhecidas e menos eficientes da competição com produtores do Sul.
5.2 Quem ganha e quem perde
A análise dos beneficiários e prejudicados pela agenda climática revela padrão consistente com a teoria da escolha pública. Os ganhadores incluem: burocratas e políticos (novos departamentos, orçamentos, jurisdições), indústria de energia “verde” (subsídios, mandatos, mercados cativos), consultores e ONGs (contratos, doações), setor financeiro (títulos verdes, mercados de carbono, ESG) e mídia (audiência, publicidade baseada em catastrofismo).
Os perdedores incluem: contribuintes (impostos e tarifas elevados), consumidores (energia mais cara, custos repassados), indústria tradicional (regulação, taxação, estigmatização), países em desenvolvimento (restrições à industrialização, dependência de transferências), classes trabalhadoras (empregos perdidos em setores “sujos”, custo de vida aumentado) e cidadãos comuns (liberdade restrita, escolhas limitadas, padrão de vida reduzido).
O padrão é clássico: benefícios concentrados em grupos pequenos e organizados (que têm incentivo para lutar por eles), custos difusos entre a população geral (que tem pouco incentivo individual para resistir). A lógica de Olson opera com precisão.
5.3 Corrupção e fraude nos mercados de carbono
A criação de “ativos políticos” como créditos de carbono gera oportunidades massivas para fraude, um custo de transação previsto pela teoria institucional. Investigações revelaram que uma vasta parcela dos créditos de carbono no mercado voluntário (VCM) são “fantasmas”, não representando reduções reais de emissões. Casos recentes, como as acusações de fraude contra a C-Quest Capital, demonstram como a financeirização da “culpa climática” criou um ecossistema de extração de renda que beneficia intermediários, certificadoras e especuladores, com impacto questionável sobre o clima físico. Mercado de externalidades não existe!
5.4 O complexo de controle epistêmico
Para sustentar o planejamento central diante de suas falhas evidentes e custos crescentes, a elite recorre ao controle da informação. O surgimento do que alguns analistas chamam de “complexo industrial de censura” revela coordenação entre agências estatais e plataformas de mídia social para suprimir dissidência.
Organizações como o Global Disinformation Index (GDI) e o Center for Countering Digital Hate (CCDH), frequentemente financiadas por governos ocidentais e fundações filantrópicas de elite, atuam para desmonetizar e silenciar vozes céticas que questionam a eficácia das políticas climáticas ou o alarmismo dos dados. Ao rotular o debate legítimo sobre custos e benefícios como “desinformação”, esse complexo protege o modelo de extração de renda e impede que o mecanismo de correção de erros do mercado de ideias funcione.
VI. Retórica somática: a linguagem da doença
A análise do discurso das lideranças globais confirma a hipótese da projeção somática. A linguagem utilizada para descrever o planeta não é técnica, geofísica ou econômica; é biológica, patológica e visceralmente ligada à experiência da doença e da velhice.
Antonio Guterres (75 anos): O Secretário-Geral da ONU tem sido o principal expoente dessa retórica. Suas declarações de que “a Terra tem febre” e de que entramos na “era da ebulição global” (global boiling) são descrições precisas da fisiologia de um idoso sob estresse térmico. A sensação de “sangue fervendo”, a incapacidade de dissipar calor e a percepção de um ambiente “sufocante” são sintomas clássicos da deriva cardiovascular e da falha termorregulatória geriátrica.
Papa Francisco (87 anos): Na encíclica Laudato Si’ e na exortação Laudate Deum, o Pontífice descreve a Terra que “geme” e “sofre as dores do parto”. É a teologia de um corpo que sofre, projetada na matéria inanimada.
John Kerry (80 anos): A ênfase constante na “fragilidade” da segurança nacional e na necessidade de evitar “pontos de ruptura” reflete a aversão ao risco extrema do idoso. A batalha climática é enquadrada como uma luta pela sobrevivência física imediata, espelhando a luta diária inconsciente do idoso contra a mortalidade e a decrepitude.
Essa retórica cria um estado de pânico perpétuo que inibe a avaliação racional de custo-benefício. A recusa obstinada das elites em aceitar dados otimistas — como a queda de 98% nas mortes por desastres climáticos em um século ou a superioridade econômica da adaptação sobre a mitigação radical — sugere que a motivação subjacente não é a otimização do bem-estar humano global, mas o alívio da ansiedade somática projetada da própria elite.
VII. Síntese: o ciclo de retroalimentação somatopolítico
O ensaio identificou um ciclo de retroalimentação com os seguintes elementos:
1. Fato fisiológico: envelhecer reduz a tolerância ao calor. O corpo do líder gerontocrata falha em regular o calor e enfrenta a finitude biológica.
2. Realidade demográfica: a população e a elite do Ocidente estão envelhecendo rapidamente, tornando a fragilidade térmica a norma entre tomadores de decisão.
3. Viés de confirmação somático: a vulnerabilidade corporal é interpretada como dado sobre o ambiente externo, transformando desconforto pessoal em evidência de crise planetária.
4. Mecanismo político: o líder utiliza o Estado para tentar controlar o ambiente macroscópico, buscando “resfriar o planeta” para aliviar seu próprio desconforto térmico e existencial.
5. Coalizão funcional: juventude ativista (”batistas”) amplifica a narrativa, fornecendo legitimidade moral e energia cinética, enquanto recebe validação identitária e “propósito”.
6. Captura de fluxos: trilhões de dólares são redistribuídos através de mecanismos regulatórios que beneficiam grupos organizados (”contrabandistas”) às expensas de grupos difusos.
7. Institucionalização: a retórica de emergência justifica a suspensão de normas democráticas, a censura de dados contraditórios e a implementação de um planejamento central que seria inaceitável em tempos normais.
Conclusão: a pergunta pela proporcionalidade
Este ensaio não argumentou que a mudança climática é irreal. O aumento de aproximadamente 1,5°C na temperatura média global desde níveis pré-industriais é dado empírico estabelecido. O argumento foi outro: que a intensidade da urgência e a natureza das respostas políticas são desproporcionalmente impulsionadas pela biologia e demografia do observador, e que esta configuração serve aos interesses materiais de grupos organizados que capturam os fluxos de recursos gerados pela narrativa de crise.
A hipótese somatopolítica não requer que se atribua má-fé aos participantes. Elites políticas idosas podem genuinamente acreditar na urgência que proclamam — precisamente porque a experimentam somaticamente. Jovens ativistas podem genuinamente acreditar que lutam pelo seu futuro — precisamente porque foram socializados em narrativas apocalípticas e encontram nelas propósito e pertencimento. Burocratas podem genuinamente acreditar que servem ao bem público — precisamente porque a expansão de suas agências lhes parece resposta proporcional à ameaça percebida.
Mas a análise de economia política não depende de intenções subjetivas. Depende de incentivos estruturais, distribuição de custos e benefícios, e lógica de ação coletiva. Por estes critérios, a agenda contemporânea da “urgência climática” revela os padrões clássicos identificados pela Escola de Escolha Pública: benefícios concentrados para grupos pequenos e organizados, custos difusos para a população geral, expansão contínua do aparato estatal, e retórica de emergência que justifica a suspensão de análises de custo-benefício.
A questão fundamental permanece: a resposta política é proporcional à ameaça? Quem define o que é “proporcional”? E quem ganha e quem perde com cada definição? São perguntas que a ciência meteorológica não pode responder — mas que a economia política deve colocar.
O “termostato gerontocrático” é, em última instância, uma metáfora para um fenômeno mais amplo: a tendência de grupos organizados com interesse abrangente em sua própria preservação capturarem narrativas de crise para expandir seu poder e recursos. Que esta captura ocorra sob a bandeira da “ciência” e do “futuro das crianças” torna-a mais difícil de criticar — mas não menos real.
Referências teóricas principais
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HAYEK, Friedrich A. The Fatal Conceit: The Errors of Socialism. Chicago: University of Chicago Press, 1988.
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NISKANEN, William A. Bureaucracy and Representative Government. Chicago: Aldine-Atherton, 1971.
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Fontes de dados empíricos
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